terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Da Vastidão à Loucura IV

Assim, transferida para um local mais isolado, encontravam-se na ala eu, uma senhora com mais de 70 anos, e dois rapazes em recuperação de narcóticos. Conheci todos no primeiro dia, bem como fui alimentar-me no refeitório geral.

No refeitório externo pude encontrar com várias internas que conheci na ala geral, e, para minha alegria, algumas delas tinham recuperado-se o suficiente para serem transferidas para a ala de reintegração, mas esta alegria não passou despercebida, pois fui marginalizada por não estar no mesmo local que elas. Chamaram-me de `chiquinha´, pois souberam que eu estava numa ala `diferente´.

Minha alegria perdurou quando encontrei uma interna que ficou impregnada pelos medicamentos (como as próprias internas chamavam o efeito colateral) e a mesma estava melhor. Lembro-me que na ala geral ela mal conseguia alimentar-se sozinha, parecia uma vara de marmelo sendo sacudida, e, agora, os tremores haviam diminuído - ou trocaram os medicamentos ou ela acostumou-se com os mesmos.

Até então, eu não fazia uso total dos medicamentos, pois toda vez que me medicavam eu ia para o banheiro para tentar vomitar aquela pílulas maceradas em água; acredito que conseguia na maioria das vezes, mas confesso que senti-me um pouco mais segura para experimentar o efeito da medicação nesta tal unidade Mesmer, e, depois da primeira noite sem sobressaltos de gritos ou movimentos, eu fui acordada as 5 da manhã com a medicação não macerada, levada em minha cama. Que conforto.

Passei a frequentar as atividades de reintegração, a me alimentar, ora na própria unidade Mesmer, ora no refeitório geral. Enfim, a vida ficou mais fácil quando um pouco de liberdade foi fornecida, mas eu ainda tinha que ser acompanhada em todos os lugares, jamais sozinha.

Pintei quadro; desenhei; cantei num pretenso coral; cantei num karaoke; varri jardim; escrevi um prólogo; tentei ler alguns livro, mas impossível com a medicação; cozinhei um bolo de cenoura; assisti a algumas palestras; fiz aulas leves de alongamento e exercício localizado; tive dieta especializada de hipocalorias e laxativos; - afinal, o plano de saúde e a conta pagavam por isto tudo.

Eu também tive algumas situações engraçadas com outros internos; fiz algumas amizades; senti medo de alguns esquizofrênicos, pois fui ameaçada, e outros escondiam-se em máscaras de anjos; tive inveja da liberdade dada aos que estavam lá para a recuperação pelo uso de narcóticos; tive umas três conversas com o psicólogo; - afinal, o plano de saúde e a conta pagavam por isto tudo.

Tive visita do meu padrasto, da minha irmã e do Fernando. Mas, o que eu não esperava aconteceu.
Conheci um rapaz que fora recém internado por tentar tirar a própria vida, e tinha outras similaridades com a minha biografia. Papo vai, papo vem, nos identificamos e ficamos amigos rapidamente. Este amigo possuía alguns elementos na fala, tanto que eu mal conseguia prestar atenção em seus olhos castanhos. Nas nossas conversas fomos muito sinceros e abertos, falamos sobre tudo, inclusive sobre os abusos que sofremos, e, na manhã seguinte, uma manha de domingo, para ser mais clara, o abuso encoberto por mais de 30 anos foi revelado após o despertar do sono.

Fiquei transtornada; deprimida; angustiada; enjoada; ferida; tolhida; amargurada; mal amada; compreendida em meus pesadelos; perdida em minha infância; arrancada do meu paladar por chocolate (único prazer certeiro que possuía).

A vastidão de sentimentos tomou-me e a visita que era para ser tranquila, acolhedora, foi horrenda. Senti-me desprotegida por que eu queria me me protege-se e repeli o Fernando naquele momento - afinal, ele sabia dos fatos, e jamais mostrara alguma indignação. Eu sequer falei de fato o que eu lembrara, mas a repulsa pelo masculino, o desatino do género, fez-me purgar todo o rancor que eu possuía.

Logo trouxeram um psiquiatra de plantão que quis saber todo o ocorrido e conversou muito comigo e medicou-me. Enfim, o último degrau parecia ter sido ultrapassado.

Naquele mesmo domingo era dia de karaoke e eu deveria ter ido para esta atividade, mas nenhum enfermeiro confirmou o meu encaminhamento - véspera de feriado de finados, e ninguém estava muito contente de estar trabalhando. Foi então que senti-me frustrada, pois fiquei o dia inteiro presa naquela unidade, que embora muito bonita, não permitia que os pacientes psiquiátricos ficassem ao ar livre sem acompanhamento.

Uma angustia; um aperto; um sufocar na minha garganta; uma loucura; uma vastidão; um desespero; um medo; um choro inconfundível e irreparável. Passei mais de 3 horas chorando sem parar, pedindo para ligarem para o Fernando ou para o meu pai ou para a minha mãe para que eu fosse embora.

Implorei; chorei; gritei; urrei; vomitei; veio o psiquiatra que tentou dialogar comigo achando que meu ataque referia-se ao feriado em si. Discutimos e ele, o psiquiatra, buscava elementos no meu quarto para que conseguisse me convencer a tomar um medicamento para eu dormir, bulinou nos meus livros; falou que as estatísticas de pessoas com o meu conhecimento e capacidade eram favoráveis à minha recuperação; discutiu meu diagnóstico comigo; discutiu minha situação medico-legal comigo, até que enfim, eu disse: - Me interdita então, pois eu não estou aqui porque queira, estou aqui porque me internaram mesmo e eu não quero mais esta prisão de luxo! O médico dos médicos, o psiquiatra respondeu-me com a maior tranquilidade de que eu mesma sabia que não era caso de internação. FINALMENTE!!! ALGUÉM SÃO NAQUELE LUGAR! Discuti mais um pouco para ter certeza do que eu ouvia, e, enfim, aceitei a medicação, mas não consegui conter o pranto e após mais 1 hora medicaram-me novamente. Dormi...

Na segunda-feira acordei com uma sensação diferente - talvez fossem todos aqueles medicamentos para dormir que continuaram me dando pela manhã. Mas eu tinha certeza de uma coisa, após 8 dias naquela instituição eu tinha visto de quase tudo, escutado de quase tudo, e sabia que não pertencia aquele lugar.

Naquela manhã de finados eu acompanhei um pouco da rotina da enfermaria e tive acesso a leitura do acompanhamento da minha evolução. Haviam colocado em meu prontuário que na noite anterior eu fiz uso de medicamento por motivo de agitação com evolução para insônia. Não tocaram no assunto do meu pranto incesso, não tocaram no assunto das minhas motivações. Ainda ouvi de uma enfermeira que meu marido devia estar trabalhando muito para pagar a minha estadia ali. Decidi então que eu deveria me tirar dali, pois as solicitações para contato com alguém da minha família eram sempre reprimidas.

Joguei meus joelhos no chão. Joguei minha cabeça no chão. Levantei minhas mãos para o alto. Pedi perdão à Deus e forças para sair dali, para curar-me, para limpar meu coração.

No fim da tarde daquele dia de finados eu escrevi um requerimento às Diretorias daquela instituição, e ouvi dos companheiros de loucuras da unidade Mesmer que eu tinha caído da cama, que aquele meu requerimento era mero sonho.

No requerimento constavam as informações do meu pranto na noite anterior; meu pedido de transferência de ala, pois eu não queria pagar por luxo; pedido de contato com meus pais, para que os mesmos soubessem que eu estava internada; pedido de alta médica ou troca de responsável pela minha internação.

Na terça-feira, dia 3 de Novembro de 2009, acordei com meu requerimento, e sua devida cópia, prontos para serem lidos e protocolizados por qualquer preposto daquela instituição. Tentei com a enfermagem que negou-se o recebimento; tentei com a assistência social que aceitou o recebimento mas não quis protocolizá-lo, alegando que não tinha carimbo - eu sou advogada, posso ser considerada louca, mas ainda sim sei que devo ter o devido comprovante de recebimento de um documento; enviaram-me, enfim, à psiquiatra titular do meu caso... hahaha

HAHAHA SIM!, pois quando levaram-me à fila de espera pediram que eu acompanhasse minha coleguinha de mais de 70 anos da mesma unidade. Esta coleguinha, numa noite, confessou-me que falavam para ela me enforcar... aff!!! Tudo bem... acompanhei a senhora e a psiquiatra pediu que eu permanecesse na consulta da mesma senhora, pois atenderia-me logo após.

Permaneci na consulta e percebi que a psiquiatra, propositadamente, deixou que a senhora falasse por mais de 30 minutos - jamais passávamos de 15 minutos numa consulta, a não ser que fosse algo muito crítico, e olha que situações e condições críticas eram a coloquialidade daquele lugar. Após o termino da consulta a psiquiatra explicou para mim, e para aquela senhora, que seria a minha vez de consultar-me, mas que a minha coleguinha, a senhorinha, também permaneceria na sala. Lembro-me claramente que a psiquiatra sabia que eu seria interrompida pela senhora que portava várias doenças mentais, mas a psiquiatra só prestava atenção nas minhas reações e em meus gestos. Enfim, passei no teste e ela ouviu-me e protocolizou o recebimento do meu requerimento falando que adiantaria a minha alta.

Em 30 minutos a minha alta estava formalizada e a assistente social veio conversar comigo para informar que no dia seguinte eu retornaria para casa. Fiquei feliz demais!!! Contei para todos e também vi felicidade nos olhos daqueles que me acolheram.

Dia seguinte recebi a ligação do meu padrasto que conversava com o psicólogo e pude trocar algumas palavras com o meu padrasto e tranquilizá-lo. Enfim, uma ligação foi recebida - negaram-se muito a fazer qualquer ligação para qualquer pessoa que eu pedisse e enfim foi-me permitido no dia de minha saída.

No mesmo dia o Fernando veio me buscar. Visitei amigos. Retornei para a casa da minha sogra e ouvi do Fernando que o mesmo já não me amava mais, mas ao cair da noite fui procurada por ele.

Algumas revoltas, confusões sentimentais, apelos...
Todo o possível tinha sido realizado por mim.
Fiz tudo que eu podia e não podia.
Lutei por alguém primeiro, para depois lutar por mim.
Não deu certo, pois o amor não era suficiente para uma nova tentativa.
Vai saber, sequer, se houve amor algum dia.
Eu amei.
Eu tentei.
Eu enlouqueci.
Eu morri.
Eu escondi.
Eu encontrei.
Eu renasci.
Eu perdoei,
A mim.
Eu vivi.

Agora quero paz!
Quero ser amada por mim e por outros.
Chega de humilhação!!!

Minha linda e amada avó - que Deus a guarde e me perdo-e por algum dia ter falado seu nome em vão - sempre disse que quem muito se abaixa o aparece. Ela tinha razão...hehehe

sábado, 28 de novembro de 2009

Das águas

Das águas que possuo,
dos desejados suspiros,
do corpo desnudo,
da falta de pudor,

Mas nada é comparável com a prisão que a minha mente criou.

Aguei,
Suspirei,
Desnuda fiquei,
Despudorada estou,

Mas nada é comparável com a água que vem das portas da minha alma.

Criei,
Esqueci,
Lembrei,
Acobertei,

Mas nada é comparável a chance que me dou.

No repouso do leito ficou a mancha rubra... isto sempre ocorreu assim... mas agora eu estou segura, pois não estou só em mim.

Estou no outro que me acolhe,
Estou no outro que quer me mostrar que a vida continua,
Estou no hálito de quem tem sede,
Estou nos olhos de qualquer um.

Tudo vira novidade em roteiro conhecido, pois os inícios, meios, e, fins sempre serão esquecidos para que possamos acreditar na novidade, novamente.

Da prisão que aos poucos me liberto,
Da missão que tenho em não me ferir,
Da partida doce e tentadora,
Do afago de alguém novo.

Não importa mais, o início ocorreu, era certo, mesmo eu não buscando; mesmo eu fugindo dele; mesmo eu querendo acreditar que grandes amores poderiam existir.

Daí a lembrança que foi lamentada em meus olhos; lágrima escondida já em momento recôndito.

Minha carne exposta, e em feridas de indignação e medicação; urticária, alergia, rubra febre dérmica.

Eu mereço o novo; eu mereço que outro venha adentrar, pois o que foi feito não pode ser reparado; pois o amor perdido não pode ser resgatado.

As águas,
A nudez,
A mente,
A vez.

Eu mereço uma oportunidade de divertir-me, uma oportunidade doce que me exalta; uma oportunidade sincera e sem expectativas; uma oportunidade dócil e que vê em mim a unicidade e a dignifica.

Frente ao espelho manchado pelas águas que derramei,
Imagem minha, borrada por tamanho pranto,
Vejo-me novamente; esguia; magra; uma menina,
Vejo-me ardente não só das urticárias, mas ardente na alma tenaz; na alma sagaz; na alma infantil de querer viver e ter a sorte de um amor tranquilo.

Vou dar esta chance a mim.
Eu mereço,
Eu mereço ser feliz.
Haverá alguém como eu.
Há alguém como eu.

Eu me copio,
Eu me toco,
Eu me retoco,
Eu me reinvento.

Porque a água é a única que realmente não é impedida quando está em grande volume, e, lembro perfeitamente que em várias ocasiões repetiram várias vezes que as minhas águas são claras, mas profundas e vastas, fortes e velozes, capazes de dar a vida e de destruir.

Eu aguo,
Eu forte,
Eu veloz,
Eu vida,

Eu sou a água.
Eu destruo.
Eu construo.

Existência

Acabaram de citar que o homem só compreende seu papel em todo o universo quando observa que e finito. Aí sim o homem passará a entender a sua humanidade, pois nasce, vive, fere, morre, como qualquer ser que sabemos existir.

A necessidade de preservação de uma unidade, ou seja, de uma única vida deve ser, no mínimo a prioridade de cada um.

A minha preservação, portanto, está em estar perto de quem realmente me ama, estar perto do que me faz feliz - embora confusa no que eu deseje ou entenda como felicidade para mim - mas estar perto sem me ferir.

Até mesmo aquele que te ama incondicionalmente, sua mãe por exemplo, é capaz de te ferir, e a unicidade de preservação é acionada.

Muitos reagem de várias formas para preservarem-se: há os que agridem; há os que se fazem de vítimas; há os que se ausentam em si mesmos; há os que culpam terceiros. Eu estou na categoria dos que se afastam, já percebi isto, pois por diversas vezes pratiquei o afastamento. Ontem mesmo pratiquei o afastamento da minha amada irmã. Amada sim, mas senti-me agredida, então, por momentos que sei que são breves, pratiquei o afastamento.

Essa unicidade de preservação; essa consciência de que tudo é finito, permite-nos, inclusive, optar como nos mostraremos ao mundo. Neste momento opto por mostrar a verdade que acredito, ou seja, a que vivo, embora possam existir outras concepções para os fatos recentes.

O mais importante disto tudo é que continuei a viver, embora obrigada a me afastar de pessoas que eu amo; embora obrigada a me afastar de ambientes que gosto; embora obrigada a readaptar-me, eu vivo, sempre sobre oração, vigiando a mim; vigiando a intenção e atitude dos outros; vigiando o que me cerca, inclusive para poder apreciar a vida que vivo.

Engraçado como uma pessoa pode lhe dizer uma frase que eu já tinha escutado diversas vezes, mas como esta pessoa é especial eu prestei um pouco mais de atenção no sentido que isto trazia para o meu cotidiano.

Eu sou finita nas minhas virtudes e nos meus erros; sou humana e imperfeita, precisando saber apreciar melhor a vida e guardar-me melhor dos outros que me prejudicam ou me prejudicaram, mesmo que sem querer ou por um breve momento.

Infinito e Perfeito só Deus. Conhecedor de todos os perigos e sabores, só Deus. Onipotente só Deus.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Eu perdoei vocês, me perdoem também

Juliana e Fernando,

Não importa se vocês continuam juntos ou não, ou se voltarão a relacionarem-se.
Importa que eu, magoada por tudo o que aconteceu; ressentida por perder o marido que eu tanto amo e tanto me dedicava; lesada por uma promessa que foi feita quando dei todos os meus bens (poucos, mas únicos para mim) e tal promessa não foi cumprida pelo Fernando; humilhada quando descobri que meu amor de nada valia para o homem que eu realmente amava;
PERDOO VOCÊS, POIS SE EU NÃO PERDOAR TODA ESTA DOR QUE ME CAUSARAM eu não poderei ser digna de ser perdoada quando eu errar, ou digna e continuar vivendo.

Perdoo porque a minha dor foi tão grande que se não houver perdão eu vou viver amargurada para o resto de minha vida.

Perdoo porque não quero que homem que eu amo me chame de irmã, prefiro ser uma amiga.
Perdoo porque nada fiz contra você Juliana, embora jamais você tenha tido coragem de me olhar nos olhos ou me cumprimentar quando nos encontramos, então eu entendo.

Perdoo porque orações foram feitas para que eu fizesse isto, perdoá-los, pois eu sou uma pessoa, diante do amor que vocês tem ou tiveram um pelo outro.

Desejo, inclusive, que se vocês continuarem juntos, sejam muito felizes. E que haja respeito, compreensão, companheirismo, cumplicidade, amor, dedicação, confiança e muita quimica entre vocês. E se tudo der certo, desejo que você Juliana, ao Fernando o filho que ele tanto quer e que a minha sogra acabou de dizer que eu demorei muito a ter.

Desejo que vocês não guardem mágoa de mim, pois tudo o que fiz foi por amor. Desejo também que não tenham pena, pois eu vou superar. Desejo também a vida os agracie com muitas felicidades e prosperidade.

Peço só, assim como eu peço aos meus amigos, que vocês possam orar por mim, assim como orarei por vocês.

Peço que entendam que por enquanto, quando eu for a São Paulo, ainda vou ter que ficar na casa do Fernando para resolver as coisas.

Que Deus os abençoe.

Felicidades.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Da Loucura à Vastidão III

Todas as roupas entregues eram marcadas com um número; estes números nos acompanhariam enquanto estivéssemos lá (estes números ainda me acompanham em algumas peças de roupas e sapatos que eu gosto muito). Enfim, a numeração facilitava a lavagem de roupas e evitava confusões, mas confesso que eu me sentia marcada como gado, pois muitas vezes pensamos que nossas coisas fazem parte de nós.

Quando na ala geral ocorrera a primeira visita, fomos acordadas mais cedo e impulsionadas para o banho, pois os familiares deveriam nos ver bem; nestes dias, principalmente, vinham estagiárias de enfermagem para nos maquiarem.

Chegara o horário das visitas e eu, toda pronta, banho tomado, vestida, maquiada, esperei minha família, alguém... passaram-se 10, 15 minutos e nada... Entrei em desespero, pois senti-me completamente abandonada e passei a procurar papel e caneta para escrever bilhetes com o número de telefone do Fernando (único número que eu lembrava) para que ele fosse me buscar para ir embora. Lembro-me que consegui que 2 famílias aceitassem os bilhetes, e posteriormente descobri que uma efetivamente ligou, mas o Fernando denunciou a ligação, e na reunião de familiares houve represália da entidade.

Quanta frustração um ser pode aguentar diariamente?

Lembro-me que a primeira vez que conversei com a assistente social, depois de uma longa espera, pedi que ela entrasse em contato com a minha mãe e com meu pai, pois eles não sabiam que eu tinha sido internada. Também lembro que eu pedi que ela desse um recado ao Fernando, que a clínica, todas as suas paredes, teto, chão, tudo era verde; este recado deveria lembrar ao Fernando sobre um pesadelo que eu tive algumas semanas anteriores. O pesadelo era do tipo de possessão; uma mulher de pele verde vinha até mim e falava em meu ouvido: SOCORRO! - depois de algum tempo entendi que esta mulher no sonho era a minha saúde mental; afinal, desistir de viver e tomar atitude para tal não é fricote, é doença.

Enfim, eu estava doente e por este motivo colocaram-me ali. Ninguém teria a capacidade de dispor-se completamente por mim , e foi assim que, posteriormente, eu descobri que por mim só eu poderia ser. É duro demais quando se descobre com Dor, mas também foi muito importante, pois minha fé foi renovada.

Após a primeira visita, inútil para mim, eu caí em aceitação e passei a adotar um comportamento letárgico; se não havia nada para fazer porque eu me preocuparia em encontrar algo? Foi então que numa quarta-feira fui transferida para uma ala diferente. Primeiro eu pensei que eu fosse para a ala de reintegração, onde havia área livre, atividades, livros; área mista, ou seja, homens e mulheres, área onde as pessoas tinham mais liberdade e podiam jogar ping-pong; área onde as alimentações eram feitas externamente, na cantina. Fiquei tão feliz!!! Meu coração pulava de alegria, pois eu poderia ler, tomar sol, conversar com todos sem medo de ser repreendida. Mas.... ledo engano.

Na verdade, eu estava sendo transferida para uma ala elitizada, que embora mista, não era nada do que a ala de reintegração era. Quando cheguei aquela ala elitizada, minha primeira frase foi: - Não posso pagar por isto! Eu não quero. Disseram-me então que tudo estava certo com o meu marido e com o plano de saúde. Mesmo assim, algo dizia-me que não estava certo.

Nesta ala eu tinha meu próprio quarto com tv a cabo, uma cama, um sofá, uma escrivanhinha com cadeira, um armário, com meu próprio banheiro com espelho e uma boa ducha, não havia tranca, nem mesmo no banheiro, mas isto era mais do que compreensível. O nome da ala era Mesmer.

Transferida, deixaram-me levar todas as minhas coisas e eu as enrolei numa toalha. Fiquei muito surpresa quando cheguei na Mesmer, pois era nova, ampla, com hall imenso com o teto como uma abóboda, onde comportava sala de jantar e sala de estar, com uma tv moderna. A frente havia o centro dos enfermeiros, com computadores. A vista era ampliada pelos vidros que permitiam enxergar o estacionamento, os quartos estendiam-se como braços, o lado esquerdo era feminino e o direito masculino. Naquele lugar também ficavam algumas das pessoas que participavam de outra linha de tratamento daquele lugar, a dos narcóticos. Também tive a notícia de que eu estava liberada para atividades junto com a ala de reintegração, bem como poderia alimentar-me fora, no refeitório geral.

Agora vou dar mais um tempinho... embora eu esteja bem melhor, todas as lembranças mexem comigo.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Atualizações

Como todos sabiam, eu era casada,
Casada com o coração e com o meu corpo, até que a avassaladora memória do ciclo da vida levou meu amor.

Fui trocada por uma mulher de 25 anos - que coisa mais cliche - óbvio, eu nunca vi um homem trocar de mulher, sendo a nova mulher, mais velha do que a antiga mulher.

Também fui apelidada fraternalmente,
Assim, mesmo perdoando é incapacitante manter-se uma relação com um irmão. Foi exatamente assim que ele, se definiu.

Se doeu? Mas é claro que doeu! A dor foi tanta que invadiu até meu espírito e a minha alma.

A dor foi tanta que levou-me da Vastidão de sentimentos à Loucura de ações e acontecimentos.

Mesmo assim, compreendo que foi necessário sentir toda esta dor, pois dizem que a dor é um fator de amadurecimento.

Se amadureci? Ainda não sei, saberei assim que envolver-me num novo relacionamento - o que não será difícil, pois não faltam pretendentes -, mas eu quero um tempinho pra mim, um tempinho pra descobrir que eu vivo bem comigo mesma.

Celibato? Não!... posso namorar, mas me envolver... só mesmo se aparecer uma nova paixão, um novo grande amor que, embora eu não espere que aconteça, como a vida é cheia de surpresas, quem sabe?

Quem sabe?

Quem?

Sabe?

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Da Vastidão à Loucura II

Depois do devaneio remediado duplamente; acusações insanas e presentes; qualquer justificativa para um corpo intoxicado de mágoas e pílulas, seria em vão.

Levaram-me à casa dos loucos - o prostibulo de sanidade e ideia - esperando que lá curassem algo que foi trazido até mim.

Eu me recordo do medo; do tempo que passei calculando meus gestos e atitudes para que não fosse confrontada, mas as histórias repetiam-se em cada rosto, espelhos de minhas torturas e então orei o credo à mais uma vítima.

O tempo desperdiçado foi levado em consideração. Aprendi que o ser humano é capaz de viver em qualquer condição e situação, pois cria suas próprias ilusões.

Desde o primeiro minuto supliquei pela minha fraqueza. Requeri aos que ali me colocaram, mas foi em vão - percebi que estava sozinha - eu era mais uma das loucas daquela ala, e tudo que eu falasse ou fizesse, mesmo que mais consciente ou consequente, seria interpretado por outros seres que enxergariam-me como quisessem.

Até a auto-piedade foi minha companheira. Encontrei, também, acalento nas loucuras alheias - pois estas eram as únicas verdades que ofereciam-me - , pois os doutores não dispunham-se ao acompanhamento - éramos mais de 30 (trinta) para uma enxuta equipe.

Enfim, concordei com o que diziam, embora fizesse de tudo para que os medicamentos não me transformassem em mais um zumbi.

Lembrei muito de quando eu internei minha mãe, e tentava comparar os meus motivos com os motivos que os outros apresentavam.

O cofre de nicotina era uma das coisas que mais me irritava; um cubículo de 3x4 metros, dentro da própria ala, onde as fumantes, de 5 em 5 minutos, aplicavam suas frustrações. Este tipo de comportamento afetava o trabalho dos auxiliares, pois eram obrigados a dispor de tempo no controle de cada cigarro e cada fumante. Em 3 dias foi implantada a ação anti-fumo. Graças ao Serra!!! Pois em local fechado já era proibido o fumo e lá, na clínica, era permitido às internas o uso desta bengala. Enfim, o adesivo pet colou e o desespero de dezena delas começou.

Lembro bem de uma que passava o dia a gritar e chorar; pedia por um cigarro e negava-se à utilização do adesivo de nicotina. Eu via em seu rosto o inferno pessoal instalado; calafrios dela passavam à mim.

Minhas roupas chegavam aos poucos, e todo o tempo era inútil, ou desperdiçava-se na tv ou dormindo. Alguma internas, com mais de uma semana, eram liberadas a alimentar-se fora dali.

Agora preciso de um tempo...
É cansativo lembrar, pois eu mesma tive que sair de lá, mas este é outro capítulo para lembrar.

domingo, 15 de novembro de 2009

Novas visões



















Eu acreditava, somente, no que enxergava,
Acreditei, também, no que senti,
Mas, atualmente, espero que o mundo surpreenda-me.

O gosto do negresco de mesma denominação,
A audível alegria alheia,
A certeza do acontecimento, e a necessidade de afastamento,
São, no mínimo, sensações que preterem meu desprezo.

Eu adiei demais o retorno da verdade,
Mesmo que a verdade fosse o que li em dia de reunião fraternal:

"A verdade é que você mente todo dia".

E a mentira para si mesmo, mesmo que seja a pior das versões da verdade, muitas vezes, é a única visão do que é a vida.

Viver em uma única reunião, para um único, e exclusivo, objetivo pessoal, é ato extremamente egoísta; quero extirpar tal comportamento e adotar novas visões.

Não fosse a minha capacidade de renovação; não fosse minha sanidade independente; não fosse a cognição dos meus próprios estímulos; talvez eu não estivesse aqui, pois o abandono foi certo, e covarde.

Novas visões acolheram meu peito em mesmo apelido; novas visões fazem, de mim, uma pessoa melhor.

Não mais importará a escolha alheia, porquê eu encontrei, em mim, o real propósito da existência egoísta e única; tão singular quanto cada inspiração que travei em peito.

Novas visões trarão meu tempo,

Novas visões sanearão meu despertar.

O estranho, que ao ninho adentrar, trará, mesmo que uma mentira, uma nova visão.

É isto que quero enxergar.