No refeitório externo pude encontrar com várias internas que conheci na ala geral, e, para minha alegria, algumas delas tinham recuperado-se o suficiente para serem transferidas para a ala de reintegração, mas esta alegria não passou despercebida, pois fui marginalizada por não estar no mesmo local que elas. Chamaram-me de `chiquinha´, pois souberam que eu estava numa ala `diferente´.
Minha alegria perdurou quando encontrei uma interna que ficou impregnada pelos medicamentos (como as próprias internas chamavam o efeito colateral) e a mesma estava melhor. Lembro-me que na ala geral ela mal conseguia alimentar-se sozinha, parecia uma vara de marmelo sendo sacudida, e, agora, os tremores haviam diminuído - ou trocaram os medicamentos ou ela acostumou-se com os mesmos.
Até então, eu não fazia uso total dos medicamentos, pois toda vez que me medicavam eu ia para o banheiro para tentar vomitar aquela pílulas maceradas em água; acredito que conseguia na maioria das vezes, mas confesso que senti-me um pouco mais segura para experimentar o efeito da medicação nesta tal unidade Mesmer, e, depois da primeira noite sem sobressaltos de gritos ou movimentos, eu fui acordada as 5 da manhã com a medicação não macerada, levada em minha cama. Que conforto.
Passei a frequentar as atividades de reintegração, a me alimentar, ora na própria unidade Mesmer, ora no refeitório geral. Enfim, a vida ficou mais fácil quando um pouco de liberdade foi fornecida, mas eu ainda tinha que ser acompanhada em todos os lugares, jamais sozinha.
Pintei quadro; desenhei; cantei num pretenso coral; cantei num karaoke; varri jardim; escrevi um prólogo; tentei ler alguns livro, mas impossível com a medicação; cozinhei um bolo de cenoura; assisti a algumas palestras; fiz aulas leves de alongamento e exercício localizado; tive dieta especializada de hipocalorias e laxativos; - afinal, o plano de saúde e a conta pagavam por isto tudo.
Eu também tive algumas situações engraçadas com outros internos; fiz algumas amizades; senti medo de alguns esquizofrênicos, pois fui ameaçada, e outros escondiam-se em máscaras de anjos; tive inveja da liberdade dada aos que estavam lá para a recuperação pelo uso de narcóticos; tive umas três conversas com o psicólogo; - afinal, o plano de saúde e a conta pagavam por isto tudo.
Tive visita do meu padrasto, da minha irmã e do Fernando. Mas, o que eu não esperava aconteceu.
Conheci um rapaz que fora recém internado por tentar tirar a própria vida, e tinha outras similaridades com a minha biografia. Papo vai, papo vem, nos identificamos e ficamos amigos rapidamente. Este amigo possuía alguns elementos na fala, tanto que eu mal conseguia prestar atenção em seus olhos castanhos. Nas nossas conversas fomos muito sinceros e abertos, falamos sobre tudo, inclusive sobre os abusos que sofremos, e, na manhã seguinte, uma manha de domingo, para ser mais clara, o abuso encoberto por mais de 30 anos foi revelado após o despertar do sono.
Fiquei transtornada; deprimida; angustiada; enjoada; ferida; tolhida; amargurada; mal amada; compreendida em meus pesadelos; perdida em minha infância; arrancada do meu paladar por chocolate (único prazer certeiro que possuía).
A vastidão de sentimentos tomou-me e a visita que era para ser tranquila, acolhedora, foi horrenda. Senti-me desprotegida por que eu queria me me protege-se e repeli o Fernando naquele momento - afinal, ele sabia dos fatos, e jamais mostrara alguma indignação. Eu sequer falei de fato o que eu lembrara, mas a repulsa pelo masculino, o desatino do género, fez-me purgar todo o rancor que eu possuía.
Logo trouxeram um psiquiatra de plantão que quis saber todo o ocorrido e conversou muito comigo e medicou-me. Enfim, o último degrau parecia ter sido ultrapassado.
Naquele mesmo domingo era dia de karaoke e eu deveria ter ido para esta atividade, mas nenhum enfermeiro confirmou o meu encaminhamento - véspera de feriado de finados, e ninguém estava muito contente de estar trabalhando. Foi então que senti-me frustrada, pois fiquei o dia inteiro presa naquela unidade, que embora muito bonita, não permitia que os pacientes psiquiátricos ficassem ao ar livre sem acompanhamento.
Uma angustia; um aperto; um sufocar na minha garganta; uma loucura; uma vastidão; um desespero; um medo; um choro inconfundível e irreparável. Passei mais de 3 horas chorando sem parar, pedindo para ligarem para o Fernando ou para o meu pai ou para a minha mãe para que eu fosse embora.
Implorei; chorei; gritei; urrei; vomitei; veio o psiquiatra que tentou dialogar comigo achando que meu ataque referia-se ao feriado em si. Discutimos e ele, o psiquiatra, buscava elementos no meu quarto para que conseguisse me convencer a tomar um medicamento para eu dormir, bulinou nos meus livros; falou que as estatísticas de pessoas com o meu conhecimento e capacidade eram favoráveis à minha recuperação; discutiu meu diagnóstico comigo; discutiu minha situação medico-legal comigo, até que enfim, eu disse: - Me interdita então, pois eu não estou aqui porque queira, estou aqui porque me internaram mesmo e eu não quero mais esta prisão de luxo! O médico dos médicos, o psiquiatra respondeu-me com a maior tranquilidade de que eu mesma sabia que não era caso de internação. FINALMENTE!!! ALGUÉM SÃO NAQUELE LUGAR! Discuti mais um pouco para ter certeza do que eu ouvia, e, enfim, aceitei a medicação, mas não consegui conter o pranto e após mais 1 hora medicaram-me novamente. Dormi...
Na segunda-feira acordei com uma sensação diferente - talvez fossem todos aqueles medicamentos para dormir que continuaram me dando pela manhã. Mas eu tinha certeza de uma coisa, após 8 dias naquela instituição eu tinha visto de quase tudo, escutado de quase tudo, e sabia que não pertencia aquele lugar.
Naquela manhã de finados eu acompanhei um pouco da rotina da enfermaria e tive acesso a leitura do acompanhamento da minha evolução. Haviam colocado em meu prontuário que na noite anterior eu fiz uso de medicamento por motivo de agitação com evolução para insônia. Não tocaram no assunto do meu pranto incesso, não tocaram no assunto das minhas motivações. Ainda ouvi de uma enfermeira que meu marido devia estar trabalhando muito para pagar a minha estadia ali. Decidi então que eu deveria me tirar dali, pois as solicitações para contato com alguém da minha família eram sempre reprimidas.
Joguei meus joelhos no chão. Joguei minha cabeça no chão. Levantei minhas mãos para o alto. Pedi perdão à Deus e forças para sair dali, para curar-me, para limpar meu coração.
No fim da tarde daquele dia de finados eu escrevi um requerimento às Diretorias daquela instituição, e ouvi dos companheiros de loucuras da unidade Mesmer que eu tinha caído da cama, que aquele meu requerimento era mero sonho.
No requerimento constavam as informações do meu pranto na noite anterior; meu pedido de transferência de ala, pois eu não queria pagar por luxo; pedido de contato com meus pais, para que os mesmos soubessem que eu estava internada; pedido de alta médica ou troca de responsável pela minha internação.
Na terça-feira, dia 3 de Novembro de 2009, acordei com meu requerimento, e sua devida cópia, prontos para serem lidos e protocolizados por qualquer preposto daquela instituição. Tentei com a enfermagem que negou-se o recebimento; tentei com a assistência social que aceitou o recebimento mas não quis protocolizá-lo, alegando que não tinha carimbo - eu sou advogada, posso ser considerada louca, mas ainda sim sei que devo ter o devido comprovante de recebimento de um documento; enviaram-me, enfim, à psiquiatra titular do meu caso... hahaha
HAHAHA SIM!, pois quando levaram-me à fila de espera pediram que eu acompanhasse minha coleguinha de mais de 70 anos da mesma unidade. Esta coleguinha, numa noite, confessou-me que falavam para ela me enforcar... aff!!! Tudo bem... acompanhei a senhora e a psiquiatra pediu que eu permanecesse na consulta da mesma senhora, pois atenderia-me logo após.
Permaneci na consulta e percebi que a psiquiatra, propositadamente, deixou que a senhora falasse por mais de 30 minutos - jamais passávamos de 15 minutos numa consulta, a não ser que fosse algo muito crítico, e olha que situações e condições críticas eram a coloquialidade daquele lugar. Após o termino da consulta a psiquiatra explicou para mim, e para aquela senhora, que seria a minha vez de consultar-me, mas que a minha coleguinha, a senhorinha, também permaneceria na sala. Lembro-me claramente que a psiquiatra sabia que eu seria interrompida pela senhora que portava várias doenças mentais, mas a psiquiatra só prestava atenção nas minhas reações e em meus gestos. Enfim, passei no teste e ela ouviu-me e protocolizou o recebimento do meu requerimento falando que adiantaria a minha alta.
Em 30 minutos a minha alta estava formalizada e a assistente social veio conversar comigo para informar que no dia seguinte eu retornaria para casa. Fiquei feliz demais!!! Contei para todos e também vi felicidade nos olhos daqueles que me acolheram.
Dia seguinte recebi a ligação do meu padrasto que conversava com o psicólogo e pude trocar algumas palavras com o meu padrasto e tranquilizá-lo. Enfim, uma ligação foi recebida - negaram-se muito a fazer qualquer ligação para qualquer pessoa que eu pedisse e enfim foi-me permitido no dia de minha saída.
No mesmo dia o Fernando veio me buscar. Visitei amigos. Retornei para a casa da minha sogra e ouvi do Fernando que o mesmo já não me amava mais, mas ao cair da noite fui procurada por ele.
Algumas revoltas, confusões sentimentais, apelos...
Todo o possível tinha sido realizado por mim.
Fiz tudo que eu podia e não podia.
Lutei por alguém primeiro, para depois lutar por mim.
Não deu certo, pois o amor não era suficiente para uma nova tentativa.
Vai saber, sequer, se houve amor algum dia.
Eu amei.
Eu tentei.
Eu enlouqueci.
Eu morri.
Eu escondi.
Eu encontrei.
Eu renasci.
Eu perdoei,
A mim.
Eu vivi.
Agora quero paz!
Quero ser amada por mim e por outros.
Chega de humilhação!!!
Minha linda e amada avó - que Deus a guarde e me perdo-e por algum dia ter falado seu nome em vão - sempre disse que quem muito se abaixa o cú aparece. Ela tinha razão...hehehe

